Na boleia de uma cegonha

 

     Por volta das nove horas da noite, o carro pifou. O sistema elétrico detectou uma falha nos padrões, em algum lugar, e decidiu trancar o fluxo de combustível. Para minha sorte, ele estancou no exato momento que chegava no posto Santa Helena, em Itaberaba, para um cafezinho.

Sem possibilidade de continuar a viagem, mas, não antes de tentar dar partida no carro, várias vezes, liguei para a seguradora solicitando um reboque. Tempo de espera: três horas. Ele vinha de Rui Barbosa, a 120 km dali.

Nesse meio tempo, outro cafezinho e um pouco de TV no restaurante do posto. Quando ele chegou, foi por volta da meia noite. Tudo ocorreu bem sistemático. O carro foi posicionado na cegonha e, em seguida, pegamos BA 233, em direção a Ipirá, para entrar na BA 052, rumo a BR 101, que, por fim, nos levaria a Terra Mirim. O tempo de viagem foi de quatro horas e trinta minutos.

     O motorista chamava-se Lucas. Vinte e dois anos, caminhoneiro ainda na barrigada mãe, quando ela cortava o Brasil, acompanhando o pai de Lucas que, por sua vez, era caminhoneiro _ assim como seus irmão, tios e demais membros da família. O menino se viu, então, caminhoneiro. Ele passa, literalmente, 24 horas ao volante, cruzando o Oeste Baiano e resgatando motoristas com problemas mecânicos nas rodovias estaduais e federais.

No decorrer da viagem, na boleia, fui ouvinte de histórias fantásticas que povoavam a cabeça desse jovem motorista, cujo estar na estrada é um exercício diário, de fatos e acontecimentos que lhe proporcionam experiências enriquecedoras.

     Quando estávamos nos aproximando de Feira de Santana, fiz-lhe uma pergunta: – Qual o seu projeto de vida? – Ele, ali, focado a estrada: – “Em breve, comprar meu primeiro caminhão, para, em seguida, mais dois. Três caminhões são suficientes. Dá para administra bem.

     Objetivo! Aí está um motorista feliz. Dirigir com alegria e prazer.

     Relaxei tanto que tirei uma pestana rápida. Quando acordei, já estávamos no portão de Terra Mirim.